8. MEDICINA E BEM-ESTAR 15.8.12

A GORDURA QUE QUEIMA GORDURA

Novas pesquisas indicam como aumentar a quantidade e a ao da gordura marrom. Presente no corpo humano, ela queima caloria em vez de armazen-la 
Cilene Pereira 

H anos a cincia pesquisa formas de acabar com o excesso de peso que tanto prejudica a sade e a silhueta. J se procurou por solues em dietas, remdios. Agora, grande parte da ateno dos pesquisadores se concentra em uma arma que existe dentro do ser humano e que at hoje no vinha sendo explorada: a gordura marrom. Diferentemente da gordura branca, que armazena gordura no corpo, a marrom a queima. Ou seja,  uma gordura do bem. Uma gordura que emagrece.
 
A cincia j conhecia a existncia desse tipo de tecido adiposo h muito tempo. Ele , na verdade, uma herana da nossa evoluo. Sua principal funo  gerar calor. Ajudou, dessa maneira, a evitar que os homens morressem de frio l nos primrdios da histria, quando a humanidade estava perigosamente exposta a baixas temperaturas. Est presente nos mamferos, em especial naqueles que hibernam. No ser humano, existe em quantidade razovel em recm-nascidos. Como so incapazes de tremer  resposta do corpo para criar calor  e de escapar sozinhos de lugares frios, apresentam depsitos de gordura marrom significativos.
 
A grande surpresa ocorreu h trs anos, quando trs importantes pesquisas publicadas na mesma edio da revista cientfica The New England Journal of Medicine  uma das mais prestigiadas do mundo  revelaram que esse tipo de gordura podia ser encontrado tambm em adultos. At ento, imaginava-se que ela desaparecia do corpo gradativamente, ao longo do crescimento. Mas os trabalhos demonstraram de maneira inequvoca que a gordura marrom fazia parte do organismo adulto e que seus depsitos se localizam na mesma regio onde esto os dos bebs, embora sejam menores do que os apresentados pelas crianas. Basicamente, h gordura marrom nos adultos no pescoo, abaixo da clavcula e ao longo da espinha.

APOSTA - O nutricionista vila acredita no potencial da gordura contra a obesidade
 
Um dos trabalhos foi feito por pesquisadores do Joslin Diabetes Center, ligado  Escola de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, e consistiu na anlise dos resultados obtidos pelo exame de imagem PET-CT, aplicado a 1.972 pessoas por diferentes razes. O outro estudo foi realizado na Universidade de Maastricht, na Holanda, e envolveu 24 jovens saudveis. O terceiro foi coordenado por cientistas da Universidade de Gotemburgo, na Sucia, e teve cinco participantes. Nestes dois ltimos os voluntrios tambm foram submetidos ao teste PET-CT.
 
Por meio dos exames, constatou-se no s a existncia das clulas de gordura marrom. Verificou-se que, nos adultos, elas continuam a exercer seu papel primordial, o de criar calor. No experimento sueco, por exemplo, os cientistas constataram que a gordura passou a queimar calorias quando os participantes permaneceram por duas horas em uma sala com temperatura que variou de 17 a 19 graus. Na pesquisa holandesa, ela comeou a funcionar quando o termostato baixou para 16 graus.
 
A divulgao desses trabalhos encheu de nimo pesquisadores do mundo todo. A gordura marrom apresenta um grande potencial como arma contra a obesidade, afirma o nutricionista mineiro Marcus vila, ps-graduado em nutrio esportiva. O entusiasmo  compreensvel. Quando ela  ativada para gerar calor, inicia-se um incrvel processo de queima de calorias. Afinal, elas so o combustvel para o funcionamento das clulas. Portanto, para cumprir sua misso, as clulas de gordura marrom recorrem  queima calrica. Sem isso, no tm como funcionar. E elas queimam mais calorias porque foram dotadas de um nmero muito maior de mitocndrias  estrutura celular responsvel pela produo de energia , uma vez que precisam desse maquinrio ampliado para dar conta de seu trabalho.

ESTRATGIAS - As pesquisas indicam que fazer exerccios e expor-se ao frio seriam formas de turbinar a ao das clulas que queimam calorias
 
Por tudo isso, estima-se que 50 gramas de tecido adiposo marrom ativo sejam suficientes para elevar em 20% a taxa do metabolismo basal (a quantidade de calorias que o organismo utiliza, em repouso, para manter o funcionamento dos rgos). Por essa conta, um indivduo que consiga acionar as clulas de gordura marrom poderia perder at cinco quilos, em um ano, mantendo a mesma dieta e o mesmo nvel de atividade fsica. Ela pode ser capaz de queimar centenas de calorias por dia, afirmou  ISTO o cientista Aaron Cypess, do Joslin Diabetes Center e autor de vrios trabalhos a respeito do assunto.
 
Entusiasmados com esse potencial, de 2009 para c os cientistas iniciaram uma corrida mundial para aprofundar o conhecimento sobre este tecido adiposo. Alguns pesquisadores focaram seu interesse no poder do frio para ativ-la. No incio do ano, um time de pesquisadores canadenses divulgou um trabalho no qual constatou que indivduos submetidos a uma temperatura de 18 graus dobraram seu gasto de energia em comparao aos participantes que ficaram em ambientes com temperaturas mais elevadas. Gastaram em mdia 250 calorias a mais do que os outros durante as trs horas de exposio ao frio. Demonstramos de forma convincente a importncia metablica da gordura marrom na gerao de calor em jovens adultos, disse  ISTO Denis Richard, diretor do Instituto Universitrio de Cardiologia e Pneumologia de Quebec, no Canad, e um dos autores do trabalho. E sua ativao pode representar um meio til de prevenir o depsito excessivo de gordura.
 
O grupo coordenado pela cientista Sheila Collins, do Centro de Pesquisa Sanford-Burnham, nos Estados Unidos, descobriu um efeito inusitado do frio. Baixas temperaturas elevam a concentrao de um hormnio fabricado no corao (peptdeo natriurtico) e conhecido por interferir no controle da presso arterial. Verificamos que ele tambm ativa o tecido adiposo marrom, explicou  ISTO a pesquisadora.

PIONEIRO - O pesquisador Sven foi um dos que descobriu que adultos tambm tm o tecido adiposo
 
Se o poder do frio para ativar a gordura  consenso no meio cientfico, sua utilizao como estratgia para emagrecimento, neste momento, ainda  motivo de discusso. Uma corrente defende que sim, como Leslie Kozak, do Centro de Pesquisa Biomdica Pennington, nos Estados Unidos. Hoje temos uma chance de diminuir a obesidade simplesmente reduzindo a temperatura ambiente, escreveu a pesquisadora em artigo sobre o tema. Amanh poderemos criar drogas que imitem a resposta natural do corpo ao frio e ajudem a aumentar a atividade dessa gordura.
 
Seu colega Jan Nedergaard, da Universidade de Estocolmo, autor de uma reviso a respeito do assunto, concorda. Normalmente digo para as pessoas: ficar em uma sala com uma temperatura fria o suficiente para se sentir desconfortvel, sem chegar a tremer, necessariamente ir estimular a gordura marrom a funcionar, afirmou  ISTO. No entanto, Sven Enerback, autor de um dos trabalhos que provaram a existncia do tecido adiposo em adultos, acredita que ainda  preciso mais tempo para saber os reais resultados da estratgia. Hoje sabemos que o frio ativa essa gordura, mas  cedo para afirmar que esse ser um caminho efetivo para a reduo de peso, disse  ISTO.
 
Outros grupos esto investigando o que mais, alm do frio, pode ser capaz de faz-la funcionar ou de estimular sua fabricao. O cientista Bruce Spiegelman e seus colegas do Instituto de Cncer Dana-Farber, nos Estados Unidos, publicaram recentemente um artigo na revista cientfica Nature  uma das mais importantes do mundo  descrevendo o efeito do exerccio para essa finalidade. Eles descobriram que a realizao de exerccios de repetio, por perodos mais prolongados, aumenta no organismo a concentrao do hormnio irisina. Produzido pelos msculos a partir do exerccio, o composto parece induzir  formao de tecido adiposo marrom em vez de estimular a produo da gordura branca, aquela que guarda gordura.  excitante descobrir uma substncia natural conectada com o exerccio com esse potencial teraputico, comemorou o pesquisador. A notcia repercutiu no Brasil. Fazer exerccios est ao alcance de todos, disse o endocrinologista Joo Eduardo Nunes Salles, vice-presidente eleito da Associao Brasileira para o Estudo da Obesidade. E o estudo de sua associao com a gordura marrom pode vir a ser um bom caminho contra a obesidade.

EXPECTATIVA - Nos EUA, Sikder (acima) planeja teste em humanos de composto que aumenta a quantidade da gordura. No Brasil, Salles acompanha as pesquisas no mundo

Na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, os pesquisadores descobriram que um dos segredos para elevar a produo da gordura que emagrece pode estar na ma. Trata-se do cido urslico, presente na casca da fruta. Ficamos surpresos ao verificar que ele pode aumentar sua quantidade, afirmou Christopher Adams, um dos responsveis pelo trabalho. A concluso foi obtida aps a realizao de uma experincia com cobaias. Metade dos animais recebeu uma dieta rica em gordura por vrias semanas. O restante ingeriu os mesmos alimentos, em maior quantidade, mas ganhou doses dirias do cido urslico. No final do experimento, os que haviam recebido suplementos do composto engordaram menos do que os outros. Agora, os cientistas pretendem verificar se resultados assim to animadores podem ser observados tambm em seres humanos.
 
Compartilham do mesmo objetivo os cientistas envolvidos nos estudos que demonstram os efeitos benficos de outros fatores.  o caso do time do Centro Mdico da Universidade Colmbia, nos Estados Unidos, empenhado em descobrir de que maneira os remdios contra a diabetes da classe das tiazolidinas so capazes de transformar a gordura branca em marrom  o que j est comprovado. Porm, essas medicaes apresentam efeitos colaterais, como perda ssea e risco de toxicidade heptica. Mas, se pudermos encontrar uma forma de impedir isso, podem ser uma opo, afirmou o chefe do trabalho, o cientista Domenico Accili.
 
Esforos tambm esto sendo feitos para entender e conseguir provar como diversas protenas atuam para estimular o funcionamento do tecido adiposo marrom. Uma das que esto na mira dos cientistas  a protena BMP8B. Em uma experincia relatada em um artigo divulgado h dois meses na revista cientfica Cell, os pesquisadores contaram que a aplicao da substncia no crebro de animais promoveu uma resposta mais forte das clulas de gordura marrom. Elas queimaram mais gordura, afirmou  ISTO um dos participantes da pesquisa, o cientista Andrew Whittle, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Esta protena oferece a possibilidade de ser uma interveno mais especfica para ajudar na reduo do peso corporal, completou.

FBRICA - O cientista Kajimura estuda como a gordura se forma
 
Aposta semelhante est fazendo um grupo da Universidade da Califrnia, nos Estados Unidos, em uma substncia chamada PRDM16. Ela est envolvida na produo do tecido marrom. Estamos investigando como ela ajuda a regular o desenvolvimento dessas clulas, explicou  ISTO Shingo Kajimura, coordenador dos estudos. As informaes podero ser usadas para a criao de remdios que estimulem a fabricao da gordura em humanos, disse.
 
Nessa empreitada para levantar tudo o que pode ativar esse tecido adiposo, h a indicao do efeito positivo de um fator um tanto quanto inusitado. Pesquisadores da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, constataram que cobaias colocadas em ambientes ricos em estmulo (com opes de brincadeira e atividade fsica e contato com outros animais, por exemplo) perderam 49% mais gordura abdominal do que outras que no desfrutaram das mesmas opes. Isso ocorreu graas a uma maior produo da gordura marrom ocorrida nestas circunstncias. O caminho para esse resultado passa por um complexo mecanismo desencadeado no crebro. Nossos achados sugerem que potencialmente poderemos induzir esse efeito modificando nosso estilo de vida ou acionando farmacologicamente o mesmo caminho cerebral, afirmou Matthew During, lder da pesquisa.
 
Em estgio mais adiantado est o grupo de Sanford-Burham, integrado por Devanjan Sikder, professor do Centro de Pesquisas de Obesidade e Diabetes. Eles se preparam para iniciar o primeiro estudo em humanos a fim de conferir a eficcia da orexina. Envolvido no controle do apetite, o hormnio tambm se mostrou capaz de ativar a gordura marrom, reduzindo em 50% a taxa de gordura corporal em cobaias. E, na Inglaterra, cientistas da Universidade de Nottingham trabalham em um sistema de exame de imagem especfico para localizar precisamente em humanos onde esto os depsitos da gordura e sua capacidade de produzir calor. A tecnologia no  agressiva e no expe as pessoas  radiao, explicou Michael Symonds, responsvel pelo trabalho. O pesquisador acredita que o recurso permitir a realizao de estudos com grande quantidade de pessoas, fornecendo informaes que permitam o uso cada vez mais a nosso favor da gordura que emagrece.
